A coerência, ou o sentido unitário da seqüência lingüística, era óbvia para os produtores e receptores daquele diálogo porque eles tinham muito conhecimento compartilhado. Por esse motivo, no diálogo entre os dois, não havia necessidade de tornar todo esse conhecimento explícito, ou de dar maior coesão às frases. Imagine uma transformação do texto para torná-lo mais coesivo e explícito:
(16) A- O café tá bom? B- Eu estou tomando café porque café ajuda as pessoas a se manterem acordadas. Eu preciso me manter acordada para poder terminar meu editorial, pois eu só escrevi duas páginas até agora. A- Bom, eu também sinto pressão por causa dos estudos: tenho uma prova amanhã. Mas, para mim, a meditação é o que faz falta mesmo. Ela me ajudava a lidar com esse tipo de problema.
Um diálogo desse tipo seria extremamente inadequado para a situação em que o casal iniciou uma conversa. Eles não precisavam explicitar nada porque o seu compartilhamento da situação, isto é, o seu compartilhamento de um tempo, um espaço e dos interlocutores participantes, bastava para preencher as lacunas de sentido. O alto grau de informação dos turnos não comprometia a coerência do texto porque a situação em que eles se encontravam (os dois acordados, numa madrugada, na cozinha de casa) era para eles significativa embora implícita, e permitia a eles preencherem as lacunas de sentido do texto dialogado.